Diário de Uma Gravidez – Introdução (julho de 2014)

 

Não sei bem quando começou tudo isso. Aos 42 anos, sabia que em breve não poderia mais ser mãe. Florencio e eu passamos anos falando sobre os prós e contras da possbilidade de ter filhos. Para nós, havia bem mais contras do que prós. No entanto, também foi assim quando decidimos nos casar ou antes de tomar várias outras decisões em minha vida. Como quando decidi viajar e escrever ao invés de cursar a universidade, por exemplo. Ainda assim, posso dizer que poucas vezes eu me arrependi de minhas loucuras. Talvez todo mundo diga isso. Afinal, não adianta muito se arrepender…

Nunca tive muitas ilusões em relação ao casamento e à vida em família, talvez porque a minha própria família não tenha sido exatamente tradicional. Não fui uma daquelas mulheres que quer casar a qualquer custo e sai por aí buscando alguém para isso. Eu sabia apenas que um dia eu viveria uma grande história de amor. Vendi os direitos autorais de um de meus livros, fui viver em Paris e me apaixonei. Com Florencio, meu marido, eu me senti em casa desde o início. O casamento foi apenas uma consequência natural, um resultado romântico do amor. No entanto, eu estava bastante consciente do que significava ficar com alguém “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”. Eu não estava comprando um pacote de êxtase. Eu estava investindo em um projeto a longo prazo que, com um pouco de sorte, me traria uma compreensão mais vasta do que é o amor incondicional.

Ou seja, nunca fiz decisões apenas racionais. Florencio e eu estamos juntos há doze anos. Eu usava DIU há quase dez anos. De qualquer maneira, tinha que tirá-lo ou trocá-lo. Na maior parte de minha vida, quando as pessoas me perguntavam se eu queria ter filhos, sempre dizia não. Ultimamente, eu respondia: sim e não. Ter filhos não era o meu sonho. Acreditei por muito tempo que nunca os teria. Jamais fiquei secretamente ninando um travesseiro, sonhando que fosse um bebezinho. Tenho muitas amigas que são assim e fariam qualquer coisa para ser mães. Algumas delas chegaram até mesmo a contrair dívidas astronômicas para pagar os tratamentos necessários a uma fertilização in vitro. Elas engravidaram, sofreram abortos espontâneos algumas vezes, quase chegando à loucura, mas continuaram a tentar e nunca desistiram de seu sonho. Hoje em dia, têm lindos filhos e dívidas ainda astronômicas. Eu as admiro muito por sua tenacidade em conseguir o que querem. Definitivamente, este não é o meu caso. Ainda assim, decidi me abrir à possibilidade da maternidade, como quem se abre à ideia de fazer uma grande viagem e nunca voltar a ser a mesma pessoa depois disso.

Minha maior inspiração e fonte de estudos é a própria vida. Aos poucos, compreendi que não havia melhor oportunidade para desabrochar e aprender sobre a vida do que gerá-la em meu próprio corpo. Eu havia feito um aborto anos atrás. Na época, neguei a gravidez, pois não me sentia preparada. Entretanto, em 2014 comecei a me perguntar seriamente se deveria dar uma segunda chance à maternidade, caso ela quisesse se manifestar através de mim. Afinal, eu havia feito todas as loucuras que queria fazer até então. Cheguei à conclusão que estava na hora de vivenciar um novo tipo de loucura. Tirei o DIU e não o substituí por nenhum outro método contraceptivo. Uma coisa era certa: se eu não engravidasse, jamais faria tratamentos químicos traumáticos. Há pessoas demais neste planeta e eu não tinha a mínima vontade de forçar o meu corpo a fazer algo que ele naturalmente não queria fazer.

Este mês, depois de seis meses sem sinal de gravidez, minha acupunturista e grande amiga sugeriu que eu fizesse um tratamento com a medicina chinesa para energizar o sistema reprodutor. Não botei muita fé, mas resolvi fazer, só para não dizer que não fiz nada. Fiz apenas duas sessões. Engravidei. Assim começou uma das maiores aventuras de toda a minha vida.